A cobertura midiática desempenha um papel decisivo na construção dos territórios urbanos, mas as abordagens dominantes permanecem em grande parte lineares, considerando a mídia como observadores externos exercendo influência unidirecional. Essa perspectiva não nos permite entender as dinâmicas recursivas pelas quais representações midiáticas, decisões políticas e transformações territoriais coproduzem. O artigo propõe uma estrutura analítica baseada na cibernética de segunda ordem para conceituar a mídia não como meros retransmissões de informação, mas como sistemas de observação integrados à dinâmica urbana, cujo próprio ato de observar influencia a governança e redefine as condições subsequentes de observação. O modelo desenvolvido é estruturado em cinco fases: enquadramento midiático, agenda política, intervenções territoriais, transformações materiais e simbólicas, e então re-observação midiática. Cada uma dessas fases é operacionalizada por meio de um conjunto de variáveis e indicadores que podem ser mobilizados em métodos mistos, combinando análises de conteúdo, documentos institucionais, dados estatísticos e pesquisas qualitativas. O quadro é ilustrado pelo caso de Medellín (Colômbia), cuja trajetória de extrema estigmatização midiática até o reconhecimento internacional como uma "cidade inovadora" demonstra a plausibilidade conceitual do modelo. Essa ferramenta sistêmica e reprodutível oferece, portanto, uma base teórica e metodológica para analisar a causalidade circular que liga mídia, políticas públicas e dinâmicas urbanas na governança contemporânea.
Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo.